Trabalho remoto ampliou o emprego de pessoas com deficiência e de trabalhadores mais velhos — com salário menor
01 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

Entre o período pré-pandemia e o pós-pandemia, a taxa de trabalho em casa entre os trabalhadores britânicos sem deficiência subiu cerca de 19 pontos percentuais. Um working paper divulgado em setembro de 2026 pelo National Bureau of Economic Research (NBER) usa esse salto para responder a uma pergunta diferente das que dominaram o debate sobre home office. Não é sobre produtividade. Não é sobre cultura organizacional. É sobre quem conseguiu entrar, ou permanecer, no mercado de trabalho por causa dele.
O estudo Here, There, and Everywhere: Remote Work's Impact on Employment in the UK, de Ian Burn (University of Liverpool), Melissa D. Gentry (University of South Florida) e Joanna Lahey (Texas A&M University), encontra evidência de que a expansão do trabalho remoto elevou o emprego em tempo integral de pessoas com deficiência e de trabalhadores de 50 a 64 anos no Reino Unido. Encontra também, para os dois grupos, redução do tempo de deslocamento e queda de salário, sem alteração na jornada.
Uma ressalva antes de qualquer leitura: é um working paper. A série do NBER circula para discussão e comentário e, como o instituto registra em cada documento, não passa por revisão por pares. É evidência preliminar, não resultado consolidado.
Como o estudo isola o efeito do trabalho remoto
A dificuldade metodológica é conhecida: quem trabalha de casa não é sorteado. Pessoas com deficiência e trabalhadores mais velhos podem procurar ocupações remotas justamente porque precisam delas, o que embaralha causa e consequência.
Os autores contornam isso em duas camadas. Primeiro, tratam a expansão do home office provocada pela pandemia como quase-experimento, comparando ocupações em que o trabalho remoto cresceu muito com ocupações em que cresceu pouco — e medindo essa taxa de crescimento entre trabalhadores sem deficiência, ou entre os mais jovens, conforme a análise. A referência é um grupo cuja adesão ao remoto não é explicada pelas barreiras que o estudo investiga.
Depois, instrumentam essa variação com os índices de teletrabalho pré-pandemia de Dingel e Neiman (2020), na versão adaptada ao Reino Unido por De Fraja, Matheson e Rockey (2021). O índice mede o quanto uma ocupação pode, em tese, ser executada de casa — característica técnica do trabalho, anterior à pandemia e independente da escolha de pessoas ou empresas.
Os dados vêm da Quarterly Labour Force Survey, pesquisa domiciliar do Office for National Statistics britânico, de 2018 a 2024, com foco em 2018-2019 e 2023-2024. Deficiência segue o critério do Equality Act 2010, e a especificação principal considera apenas deficiências físicas — condições cognitivas entram nos testes de robustez, não no resultado central. "Mais velho" significa de 50 a 64 anos; tempo integral, 30 horas semanais ou mais.
O que os números mostram
No resultado principal, cada ponto percentual de aumento no trabalho remoto de uma ocupação eleva em cerca de 0,93% o emprego em tempo integral de trabalhadores com deficiência física naquela ocupação. Para o grupo de 50 a 64 anos, o efeito é de aproximadamente 0,38% — menor, mas estatisticamente significativo e estável nos testes de robustez.
Os autores fazem uma conta de ordem de grandeza e alertam que ela não é uma decomposição formal: aplicada ao aumento agregado de 19 pontos percentuais, a expansão do remoto poderia responder por algo entre 42% e 99% do crescimento do emprego em tempo integral de pessoas com deficiência no período, conforme a especificação. É um intervalo largo, apresentado como ilustração.
Um detalhe que não aparece no resumo do paper muda o sentido do resultado para o grupo mais velho. Entre trabalhadores de 50 a 64 anos, o emprego agregado em tempo integral não cresceu entre os dois períodos. A relação positiva no nível da ocupação provavelmente não reflete criação líquida de postos, e sim retenção, adiamento da saída do mercado ou migração para ocupações em que o remoto se expandiu. É um efeito de permanência, não de entrada.
O tempo de deslocamento caiu cerca de 29% para trabalhadores com deficiência e 23% para os mais velhos — o que, sobre um percurso médio de 16 e 15 minutos antes da pandemia, equivale a algo em torno de cinco e quatro minutos por dia. A jornada habitual não mudou. O trabalho remoto alterou onde o trabalho acontece, não quanto trabalho é ofertado.
Mais emprego, salário menor
E alterou também quanto se paga por ele. Cada ponto percentual de aumento no home office está associado a uma queda de 0,17% nos salários, com a mesma magnitude para os dois grupos.
O próprio estudo registra que a previsão teórica era ambígua. Ganho de produtividade, redução de custos e menor exposição à discriminação empurrariam salários para cima; salário de reserva menor e competição maior por vagas remotas empurrariam para baixo. O resultado indica que a segunda força predominou — mas são duas explicações distintas, com implicações opostas, e o estudo não as separa.
Na primeira leitura, o trabalhador aceita remuneração menor em troca de flexibilidade: é uma escolha, e o desconto compra algo que ele valoriza. Na segunda, a vaga remota atrai muito mais candidatos e o poder de barganha individual cai — não é escolha, é preço imposto a quem tem menos alternativas. As duas leituras são compatíveis com o mesmo dado.
Há ainda uma ressalva de precisão. Os autores pedem cautela explícita na leitura do resultado salarial, porque a amostra cai para 59 ocupações na especificação de deficiência e 75 na de idade. E o estudo norte-americano de referência, de Bloom, Dahl e Rooth (2026), encontrou efeito negativo bem maior, de 4,2%, com metodologia diferente. A direção é a mesma; a magnitude, não.
Por que isso muda a decisão sobre retorno ao escritório
A conversa corporativa sobre presencial e remoto costuma ser conduzida como questão de controle, cultura e preferência da liderança. A contribuição prática deste estudo é sugerir que há uma variável adicional na mesma decisão: a composição do conjunto de candidatos a que a empresa tem acesso.
A inferência é deste artigo, não do paper — mas segue dos dados. Se a expansão do remoto elevou a participação desses grupos no mercado britânico, a retração tende a operar no sentido inverso, e uma política de retorno obrigatório ao escritório funciona como filtro sobre quem consegue se candidatar. Para empresas com dificuldade real de contratação em funções especializadas, é um custo que raramente aparece na planilha da decisão.
O segundo ponto é mais desconfortável. Se o acesso ampliado vem acompanhado de remuneração menor, a empresa que abre vagas remotas precisa verificar se pessoas contratadas nesse regime estão sendo pagas abaixo de pares presenciais em funções equivalentes. Salário menor não é consequência natural da flexibilidade; é um resultado mensurável e corrigível dentro de cada empresa.
Os limites do estudo
O estudo é britânico. Estrutura ocupacional, definição legal de deficiência, sistema previdenciário e regulação do teletrabalho no Reino Unido diferem dos brasileiros, e o grau de informalidade do mercado brasileiro não tem equivalente no desenho da pesquisa. Nada aqui é dado local: qualquer transposição é hipótese a testar, não conclusão.
Os autores argumentam que a proximidade entre os resultados britânicos e os norte-americanos — cerca de 0,93% contra aproximadamente 1% — sugere que as barreiras removidas pelo trabalho remoto podem ser comuns a contextos institucionais distintos. É plausível, apoiado em dois países ricos, e não uma demonstração de que o efeito se reproduz em qualquer mercado.
Vale registrar também que nenhum dos dois grupos é homogêneo. A especificação principal cobre deficiências físicas e não fala pelas demais. Entre os trabalhadores mais velhos, o efeito se concentra em quem não tem diploma universitário; entre os que têm, o estudo não encontra efeito relevante — coerente com a hipótese dos autores de que esse grupo já estava em ocupações de alto potencial remoto antes da pandemia.
O que o paper oferece, então, não é uma recomendação de modelo de trabalho. É evidência preliminar de que essa decisão tem um efeito distributivo que a maior parte das discussões sobre o tema simplesmente não mede.



