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Quando o home office virou padrão, ele parou de acomodar as mães

29 de setembro de 2026 · 10 min de leitura

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Durante quase duas décadas, nos Estados Unidos, trabalhar de casa funcionou como uma válvula. Quando uma mãe que já tinha dois filhos tinha mais um, a probabilidade de ela passar a trabalhar remotamente subia. Não era política corporativa. Era arranjo: alguém pedia, alguém aprovava, e o remoto absorvia parte do choque.

Depois de 2020, esse efeito desapareceu.

É o que estima um working paper publicado pelo NBER em setembro de 2026, de Benjamin W. Cowan e Mohamed Hafis Zida. Usando dados individuais da American Community Survey entre 2003 e 2024, os autores medem o efeito causal de um filho adicional sobre o arranjo de trabalho das mães. Antes da pandemia, o efeito sobre o trabalho remoto era positivo e estatisticamente significativo. No período 2020–2024, ele some.

O detalhe que torna o resultado interessante é o timing. O trabalho remoto não encolheu nesse intervalo — ele triplicou. Na amostra do estudo, a proporção de mães trabalhando de casa passou de 4,3% entre 2003 e 2019 para 14,1% entre 2020 e 2024. Havia muito mais home office disponível. E, mesmo assim, ele parou de chegar em quem tinha acabado de ganhar mais uma restrição em casa.

O que o estudo mediu, e como

Comparar diretamente mães com mais filhos e mães com menos filhos não resolve nada: quem decide ter um terceiro filho é diferente de quem decide não ter, de formas que também afetam a carreira. Para contornar isso, os autores usam duas fontes de variação que as famílias não escolhem.

A primeira é o sexo dos dois primeiros filhos. Casais cujos dois primeiros filhos são do mesmo sexo têm probabilidade maior de tentar um terceiro — no estudo, 5,1 pontos percentuais a mais. A segunda é parto gemelar na segunda gestação, que empurra a família de dois para três filhos sem decisão envolvida, e eleva essa probabilidade em 65,8 pontos.

Nenhuma das duas coisas tem relação com ambição profissional, tipo de emprego ou disposição a negociar flexibilidade. É isso que permite ler o resultado como efeito causal, e não como correlação.

Duas consequências importam para interpretar o texto daqui em diante. A amostra é de mães de 25 a 55 anos que já tinham pelo menos dois filhos em casa — são 3,7 milhões de observações no recorte de trabalho remoto e 4,7 milhões no de participação na força de trabalho. E o que está sendo medido é o efeito do filho adicional, do terceiro em diante. Não é o efeito de se tornar mãe.

A parte que não mudou, e a parte que mudou

O efeito da fecundidade sobre participação na força de trabalho é estável e grande ao longo de todo o período: um filho adicional reduz a participação entre 2,9 e 5,6 pontos percentuais, a depender do instrumento usado — algo entre 3,9% e 7,6% da taxa média. Isso é consistente com décadas de literatura. Filhos tiram mães do mercado de trabalho, e continuaram tirando depois de 2020.

O que mudou foi a compensação.

Entre 2003 e 2019, um filho adicional aumentava a probabilidade de trabalho remoto em 0,9 ponto percentual pela estimativa do instrumento de sexo dos irmãos — equivalente a 21% da média pré-pandemia. Entre as mães que permaneciam na força de trabalho, o aumento chegava a 1,3 ponto, algo entre 8% e 26% da média do período.

Entre 2020 e 2024, a estimativa fica negativa. Aqui vale precisão: o ponto estimado é de 2,3 pontos percentuais negativos em uma das especificações, significativo apenas a 10%, e bem menor e não significativo na outra. Os próprios autores descrevem o efeito pós-pandemia como negativo, porém em geral indistinguível de zero. A leitura correta, portanto, não é que o home office passou a prejudicar ativamente as mães. É que ele deixou de ajudar.

Essa segunda leitura é a robusta — e é a mais desconfortável. Os intervalos de confiança do período pós-pandemia descartam qualquer ganho de trabalho remoto maior que 0,29 a 0,44 ponto percentual. Traduzindo para o que interessa: no melhor cenário ainda compatível com os dados, o home office compensa entre 6,5% e 16% da perda de participação no mercado de trabalho causada por um filho adicional. O restante não é compensado por nada.

A explicação mais óbvia não sobrevive ao teste

A hipótese natural seria a de composição: talvez as mães que hoje têm mais filhos simplesmente estejam em ocupações menos teletrabalháveis, e o resultado não diga nada sobre o home office em si.

Os autores testam isso e não encontram sustentação. O efeito da fecundidade sobre a probabilidade de estar em uma ocupação teletrabalhável é estatisticamente indistinguível de zero em todos os períodos analisados. O mesmo vale para mudanças nas características observáveis do subgrupo que efetivamente muda de comportamento por causa dos instrumentos. Faz sentido: os instrumentos só atuam depois que dois filhos já nasceram, quando poucas mulheres ainda trocam de ocupação.

Ou seja: a mesma mãe, na mesma ocupação, com o mesmo acesso nominal ao trabalho remoto, deixou de conseguir usá-lo como acomodação.

Há ainda um dado que corta uma saída comum do debate. O estudo estima os mesmos efeitos sobre os cônjuges e não encontra efeito detectável sobre o trabalho remoto deles. O ajuste não foi redistribuído dentro de casa. Ele simplesmente deixou de existir.

O que os autores colocam no lugar

Para explicar o resultado, Cowan e Zida constroem um modelo teórico simples apoiado em dois mecanismos.

O primeiro é o diferencial compensatório de salário. Quando o trabalho remoto era raro, ele era negociado caso a caso, como exceção, e seu preço era baixo ou individual. Quando virou um benefício amplamente desejado, passou a ter preço de mercado: quem quer remoto abre mão de alguma coisa em remuneração. O que antes era concessão virou item de troca salarial — e concessões e trocas não têm o mesmo efeito sobre quem está na corda bamba.

O segundo é o grau de monitoramento. À medida que o trabalho remoto se generalizou, as empresas passaram a monitorá-lo mais e a organizá-lo em torno de disponibilidade síncrona. Isso reduz diretamente a capacidade de combinar trabalho remunerado e cuidado infantil dentro de casa — que era exatamente a função que o home office cumpria como acomodação.

Repare no que os dois mecanismos têm em comum. Nenhum deles é tecnológico. A ferramenta é a mesma, a conexão é melhor, o software é mais maduro. O que mudou foi o desenho organizacional em torno da ferramenta.

O que isso muda para políticas de flexibilidade

A implicação prática para quem desenha política de pessoas é específica, e não se resolve com mais flexibilidade.

Separe adoção de resultado. A métrica usual de um programa de flexibilidade é quantas pessoas aderiram. Essa métrica ficou ótima depois de 2020 e, segundo este estudo, parou de corresponder ao efeito pretendido. Adoção alta é compatível com efeito zero sobre o grupo que a política deveria proteger.

Meça o subgrupo, não a média. O efeito agregado do home office sobre satisfação e retenção pode continuar positivo enquanto o efeito sobre mães com filhos pequenos vai a zero. Uma média saudável esconde exatamente o caso que justificava a política.

Trate monitoramento e expectativa de sincronia como parte da política, não como detalhe de operação. Se o desenho de rotina exige presença online contínua, reuniões distribuídas ao longo do dia e resposta imediata, a permissão de trabalhar de casa foi concedida e a folga que ela criava foi retirada no mesmo movimento.

Não confunda permissão com redistribuição de carga. Universalizar o direito de trabalhar remotamente não retira nenhuma tarefa de ninguém. Sem remoção explícita de carga, o que se universaliza é o local, não o alívio.

A regra mais geral: folga que vira padrão deixa de ser folga

Aqui entra uma leitura que o estudo não testa, e que precisa ser lida como interpretação e não como resultado. Mas o mecanismo dos autores a sustenta bem.

Boas práticas costumam ter dois componentes: o mecanismo e a exceção. O mecanismo é o que a prática faz — trabalhar de casa, ter horário flexível, poder tirar férias quando quiser. A exceção é o fato de ela ser negociada, individual e visível, o que obriga a organização a reconhecer que existe uma restrição ali e a ajustar expectativa em torno dela.

Quando a prática é universalizada, o mecanismo permanece e a exceção morre. Ninguém mais precisa pedir. Ninguém mais precisa aprovar. E, sem o pedido, ninguém renegocia a expectativa que tornava o arranjo útil. O sistema recalibra a linha de base em cima da nova capacidade e volta a operar com folga zero — só que agora dentro da casa das pessoas.

Esse é um padrão reconhecível fora de RH. Um processo ganha capacidade, a demanda cresce até ocupá-la e o gargalo reaparece no mesmo lugar. Uma automação libera horas, as horas são imediatamente realocadas e ninguém consegue apontar o ganho. O erro em todos os casos é o mesmo: tratar a folga como propriedade do mecanismo, quando ela era propriedade do acordo em volta do mecanismo.

O teste prático é direto. Se uma prática da sua empresa foi adotada como exceção e depois virou padrão, ela provavelmente parou de resolver o problema original — e ninguém percebeu, porque a política continua lá, com números de adesão excelentes.

Os limites deste estudo

Quatro ressalvas importam antes de transportar qualquer conclusão.

É um working paper. Circula para discussão e ainda não passou por revisão por pares nem pela revisão do conselho do NBER. Os autores declaram não ter conflito de interesse a reportar.

Os dados são dos Estados Unidos. Mercado de trabalho, oferta e custo de creche, licença parental e cultura de jornada são diferentes dos brasileiros. A direção do resultado é informativa; a magnitude não é transferível.

O efeito estimado é de filhos de ordem mais alta, em famílias que já tinham dois filhos, e vale para o subgrupo cujo comportamento de fecundidade responde aos instrumentos. Não é uma afirmação sobre todas as mães nem sobre a maternidade em geral.

A medida de trabalho remoto vem de pesquisa domiciliar. Ela capta o arranjo declarado pelo respondente, não a política formal do empregador nem a qualidade desse arranjo.

Conclusão

O achado central deste estudo não é sobre home office. É sobre o que acontece com uma prática quando ela deixa de ser negociada.

Entre 2003 e 2019, o trabalho remoto chegava a quem precisava porque precisar era a condição de acesso. Depois de 2020, ele chegou a todo mundo — e, exatamente por isso, parou de ser desenhado em torno de quem precisava. A tecnologia melhorou, a disponibilidade multiplicou por três, e o efeito protetor evaporou.

Vale rever, na sua própria empresa, quais políticas foram universalizadas nos últimos anos sem que ninguém tenha voltado para verificar se elas ainda resolvem o problema que justificou sua criação. A resposta provavelmente não está no relatório de adesão.

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