Com o menor desemprego da série, 80% das empresas brasileiras dizem não achar quem contratar
29 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

O índice não sai de 80% desde 2023. Em serviços que vivem de contato humano, a decisão que sobra não é abrir mais vaga , é definir o que a pessoa contratada vai fazer com as horas dela.
O Brasil fechou o segundo trimestre de 2026 com taxa de desocupação de 5,4%, a menor já registrada para o período desde o início da série da PNAD Contínua, em 2012. São 103,1 milhões de pessoas ocupadas e 5,9 milhões desocupadas, segundo o IBGE.
No mesmo país, no mesmo ano, 80% dos empregadores dizem não conseguir preencher as vagas que abrem.
Os dois números são verdadeiros ao mesmo tempo. É a simultaneidade que interessa.
O dado de contratação vem da Pesquisa de Escassez de Talentos 2026 do ManpowerGroup, divulgada em fevereiro, que ouviu 39 mil empregadores em 41 países, sendo 1.020 no Brasil. O índice brasileiro ficou oito pontos acima da média global, de 72%. Mas o número mais revelador não é o de 2026. É a série: 80% em 2023, 80% em 2024, 81% em 2025, 80% em 2026.
Quatro anos. Ciclos de juros diferentes, um mercado de trabalho que passou de frouxo a apertado, uma taxa de desemprego que caiu quase pela metade. O indicador não se moveu.
Um índice que não responde a nada disso não está medindo conjuntura. Está medindo estrutura.
O padrão também não é exclusivo de serviços. Na Sondagem Industrial da CNI, a falta de trabalhador qualificado passou de cerca de 5% das menções entre 2015 e 2020 para cerca de 23% nas leituras mais recentes, o maior patamar desde o começo da série, em 2015. Hoje é o quarto maior entrave apontado pela indústria, atrás de carga tributária, juros altos e demanda interna insuficiente. Entre as pequenas empresas, sobe para 28,4% e vira o segundo. "Sem trabalhador qualificado, as empresas têm dificuldade para aumentar a produtividade", afirmou Mário Sérgio Telles, diretor de economia da CNI.
O trabalhador passou a ter alternativa — e usa
A pressão aparece com mais força em serviços, e não por acaso: o setor responde por 57% do emprego formal brasileiro e por cerca de 70% do PIB, segundo levantamento do Conselho de Serviços da FecomercioSP publicado em abril de 2026.
O estudo mede uma variável que diz mais sobre contratação do que a taxa de desemprego: o tempo médio de permanência no emprego. Entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2026, esse tempo caiu 6,8 meses no país, uma redução de 27%. No mesmo intervalo, o volume de admissões cresceu cerca de 80%. As empresas contrataram muito mais e seguraram muito menos.
Dentro de serviços, o efeito se concentra justamente onde o trabalho é presencial e relacional. Alojamento e alimentação lideraram a alta de contratações, com 159,4%. Em seguida vêm outros serviços, com 112,8%, e transporte e armazenagem, com 81,9%.
"Hoje, mais do que contratar, o empresário precisa pensar em como reter. O mercado está mais dinâmico e o profissional circula mais", disse Marcelo Braga, presidente do Conselho de Serviços da entidade.
Isso reposiciona o problema. Não é que não exista trabalhador disponível. É que o trabalhador tem para onde ir, e vai. Cada saída devolve a empresa ao início do funil: anúncio, entrevista, contratação, treinamento — e, meses depois, tudo de novo.
A vaga que ninguém aceita é feita de quê
Aqui entra a parte que costuma ficar de fora da conversa sobre escassez.
Uma vaga não é uma unidade indivisível. É um pacote de tarefas que alguém montou, quase sempre por acúmulo e não por projeto. Quando uma empresa de serviço diz que não encontra atendente, técnico ou recepcionista, ela está dizendo que não encontra quem aceite aquele pacote específico, pelo preço que ela paga.
E o pacote costuma misturar duas camadas muito diferentes. Uma exige julgamento, leitura de contexto e confiança: a conversa com o cliente irritado, a venda que depende de vínculo, o diagnóstico que muda conforme a resposta vem. A outra é triagem, confirmação, transcrição, reenvio, atualização de planilha.
Não existe dado público que separe com precisão essas duas camadas nas empresas brasileiras de serviço. Existem indícios de ordem de grandeza. Um estudo conduzido pela New Field Research para a fintech Conta Simples, com apoio da Visa, ouviu 1.524 empreendedores e gestores financeiros entre novembro e dezembro de 2024 e estimou que micro, pequenas e médias empresas brasileiras dedicam 21,47 horas por semana apenas à gestão de despesas corporativas — quase dois dias e meio úteis. O levantamento foi encomendado por uma empresa que vende exatamente a solução para esse problema, o que pede desconto na leitura. Ainda assim, mede uma única função administrativa, não o total delas.
Agora junte isso a um dado do ManpowerGroup que quase ninguém comenta. Entre as competências técnicas mais difíceis de encontrar no Brasil em 2026, atendimento ao cliente aparece no topo da lista, ao lado de desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial e de dados. E a competência comportamental mais buscada pelos empregadores brasileiros é profissionalismo e ética no trabalho.
Ou seja: o que está escasso é precisamente a camada humana. E é ela que fica espremida quando a pessoa contratada para exercê-la passa boa parte do expediente na camada administrativa.
Declaração de interesse: sou fundador da ASTX e da Claudim, que vendem, entre outras coisas, automação de processos e agentes de inteligência artificial para empresas. O argumento a seguir descreve o mercado em que trabalho e deve ser lido com isso em vista.
O erro simétrico
Se a conclusão fosse simplesmente "automatize o atendimento", o caso mais citado do setor já teria encerrado a discussão — no sentido contrário.
Em fevereiro de 2024, a Klarna anunciou que seu assistente de inteligência artificial respondia a maior parte das conversas de suporte e executava o trabalho equivalente ao de 700 atendentes. Em maio de 2025, o presidente-executivo Sebastian Siemiatkowski voltou atrás em entrevista à Bloomberg, reportada pela Entrepreneur: a prioridade dada ao corte de custos havia produzido qualidade menor, e a empresa retomou a contratação de atendentes humanos. "Investir na qualidade do suporte humano é o caminho do futuro para nós", disse ele, em tradução livre do original em inglês.
A leitura mais plausível desse episódio não é que automação não funciona. É que automatizar a camada errada destrói exatamente o ativo que a empresa tentava preservar. Quem automatiza a conversa difícil economiza no ponto em que o cliente mede valor.
Há ainda um limite mais prosaico. Automação aplicada sobre processo desorganizado não organiza a desordem: acelera. Se a empresa não consegue dizer, em uma frase, o que é triagem e o que é caso, nenhuma ferramenta vai descobrir isso sozinha.
Três perguntas antes de abrir a próxima vaga
A alternativa à contratação não é a tecnologia. É o redesenho do conteúdo do trabalho. A tecnologia entra depois, como consequência de uma decisão que já foi tomada — e três perguntas ajudam a tomá-la.
1. Do que essa vaga é feita, em horas?
Por uma semana, registre o que a equipe efetivamente executou e classifique cada item entre "exigiu julgamento humano" e "não exigiu". Não é pesquisa, é inventário. A proporção costuma surpreender quem nunca mediu.
2. Qual das camadas o cliente percebe?
A parte que sustenta preço e segura cancelamento raramente é a que consome mais tempo. Se as duas coincidem, automatizar é arriscado. Se divergem, existe folga real.
3. O que acontece com a hora liberada?
Devolver tempo ao time só vale se esse tempo for realocado de forma explícita — em atendimento, em treinamento, em venda. Hora liberada sem destino definido é reabsorvida pela mesma rotina em poucas semanas.
Vale registrar que essa não é a resposta majoritária do mercado. Entre os empregadores brasileiros ouvidos pelo ManpowerGroup, a estratégia mais citada para enfrentar a escassez foi qualificar e requalificar o próprio time, com 44% — bem acima da média global de 27%. Depois vêm buscar novos públicos de talento (25%), flexibilizar local (23%) e flexibilizar horário (21%). Redesenhar o conteúdo do trabalho não aparece como categoria própria na pesquisa.
O que está, de fato, sob controle da empresa
A escassez brasileira não é só de gente. É também de desenho.
Enquanto o problema for lido apenas como oferta de mão de obra, a resposta seguirá sendo abrir vaga, disputar salário e reabrir a mesma vaga seis meses depois. E o índice seguirá em 80%, como segue desde 2023.
Nenhuma empresa isolada resolve a parte estrutural disso. Formação profissional, produtividade agregada e informalidade não se decidem na sala de reunião de uma PME. Mas existe uma parte menor do problema que é decidida ali, e só ali: o que, exatamente, a pessoa contratada vai fazer com as horas dela.



