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O capital segue o fundador migrante. O sucesso, só em dois países

26 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

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Que fundador imigrante tem desempenho acima da média nos Estados Unidos é um achado estabelecido na literatura de capital de risco, e virou argumento recorrente em política de inovação e em programa de atração de talento. Um working paper divulgado em outubro de 2026 testa se esse padrão se repete no resto do mundo e encontra um descolamento que o debate público costuma tratar como uma coisa só.

O trabalho é Global Entrepreneurial Talent Flows: Widely Funded, Selectively Successful?, de Paul A. Gompers e Henry Woo, publicado na série de working papers do National Bureau of Economic Research (NBER) sob o número 35943.

A base é ampla: 913.226 pares de fundador e empresa, em 213 países, no período de 1990 a 2026.

O que o estudo separa

Os autores comparam dois tipos de fundador móvel com fundadores locais equivalentes.

O primeiro grupo é de expatriados, quem constrói a empresa fora do país de origem. O segundo é de repatriados, quem volta ao país de origem depois de experiência no exterior.

A separação relevante do trabalho, porém, não é entre esses dois grupos. É entre duas variáveis que normalmente aparecem juntas: acesso a capital e desfecho de sucesso.

No acesso a capital, o resultado é global. Segundo o resumo, os dois grupos captam rodada inicial de investimento com mais frequência do que fundadores locais comparáveis, e isso vale em escala internacional. Investidor em todo lugar aposta na mobilidade.

No desfecho, o resultado é concentrado. O prêmio de sucesso dos expatriados se concentra nos Estados Unidos, com 18%, e no Reino Unido, com 26%, especialmente entre quem entrou esses países pela via da pós-graduação, do emprego ou da fundação direta de empresa. Os repatriados, segundo os autores, raramente apresentam vantagem comparável.

A conclusão que os autores extraem é que o capital segue fundadores móveis entre fronteiras, mas o sucesso os segue de forma seletiva.

Por que o descolamento importa

Captação e desfecho são usados como sinônimos de qualidade em quase toda conversa sobre startup. Rodada captada é notícia. Rodada captada é validação. Rodada captada entra em apresentação de resultado de fundo e em material de recrutamento.

Este estudo indica que, no caso específico da mobilidade internacional do fundador, os dois se separam. O atributo prevê captação em qualquer lugar e prevê desfecho em dois lugares.

Para quem investe ou avalia parceria, a leitura prática é que mobilidade internacional, isoladamente, não é sinal de qualidade de execução. Ela é sinal de que o fundador passa melhor pelo filtro de investidor, o que não é a mesma coisa. E se o prêmio de desfecho aparece em dois ecossistemas e não nos demais, a variável explicativa mais plausível não é o atributo da pessoa. É o ambiente de destino.

Essa leitura é uma inferência a partir do padrão apresentado, não uma conclusão causal estabelecida pelo resumo.

A leitura brasileira que incomoda

O achado de que repatriados raramente apresentam prêmio de sucesso contraria a lógica mais comum de política de inovação em países que exportam talento, o Brasil incluído.

O raciocínio padrão dessas políticas é que basta trazer de volta quem acumulou experiência fora. A pessoa voltaria carregando método, rede de contatos e padrão de execução, e isso se transferiria para o ecossistema local.

Se o resultado estava no ambiente, e não apenas na pessoa, trazer a pessoa não transfere o resultado. O que o ambiente oferece não cabe na bagagem: acesso a cliente disposto a comprar de empresa nova, capital em estágio seguinte, talento técnico disponível, e mercado de saída com liquidez. Nenhum desses quatro itens acompanha o fundador no voo de volta.

Isso não é argumento contra programa de repatriação. É argumento contra tratar repatriação como substituto de construção de infraestrutura de execução local. A concentração de capital é, aliás, um fenômeno que já aparece nos dados de mercado, como mostramos em funding na América do Norte no terceiro trimestre de 2026.

O limite mais sério do estudo

A variável de sucesso usada é desfecho de saída, tipicamente venda da empresa ou abertura de capital. Essa é uma medida parcial de valor criado e fortemente dependente da profundidade do mercado de capitais local.

Isso pode gerar parte do resultado por construção. Ecossistemas com mercado de saída mais líquido produzem mais saídas, independentemente de quem fundou a empresa. Estados Unidos e Reino Unido são precisamente os dois mercados com maior profundidade nesse quesito.

Em outras palavras: é possível que o estudo esteja medindo, em parte, onde é mais fácil vender uma empresa, e não onde é mais provável construir uma boa empresa. Empresa lucrativa, de capital fechado, que nunca foi vendida, não aparece como sucesso nessa métrica.

Também não é possível, a partir do resumo, separar seleção de efeito causal. Quem consegue fundar nos Estados Unidos pela via da pós-graduação pode já ser diferente antes de migrar, em capacidade, em recursos e em rede de origem. Nesse caso, o ecossistema não produziu o resultado, apenas selecionou quem já o produziria.

E vale a ressalva de estágio: trata-se de working paper, material em circulação para discussão, ainda não revisado por pares. Esta análise se apoia no resumo publicado, sem consulta ao texto completo, portanto metodologia detalhada e limitações declaradas pelos autores não foram verificadas aqui. Vale a mesma cautela que aplicamos a outro working paper do NBER sobre dedução de juros e queda no patenteamento.

O que fica, para além do capital de risco

O mecanismo que o estudo sugere tem uma versão interna, e ela vale para empresa que não tem nada a ver com startup.

Quando uma organização contrata um executivo de fora para resolver um problema estrutural, está fazendo a aposta do repatriado. A premissa é que a pessoa carrega o resultado que obteve no ambiente anterior. Em muitos casos, o resultado anterior era propriedade do sistema em que ela operava: o processo que existia, o dado disponível, a equipe formada, o cliente que já comprava.

A pessoa chega, encontra outro sistema, e o desempenho não se reproduz. A leitura usual dentro da empresa é que a contratação foi ruim. A leitura mais plausível, à luz desse tipo de evidência, é que a aposta estava na variável errada.

O que o estudo oferece não é um veredito sobre fundadores. É uma peça contra o culto ao indivíduo como explicação de resultado, com 913 mil observações por trás. Resultado costuma ser propriedade do sistema, e sistema não se contrata nem se repatria. Se constrói.

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