Tecnologia não é uma lista de compras: como transformar tendências em portfólio de decisões
Equipe Claudim
16 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

O relatório de tendências tecnológicas da McKinsey para 2026 ajuda a mapear sinais de mudança, mas não decide onde uma empresa deve investir
Há uma diferença importante entre acompanhar tecnologia e apostar em tecnologia.
A primeira atividade produz repertório. A segunda consome dinheiro, tempo de equipe e capacidade de execução.
Essa diferença ganha peso com a publicação, em 15 de setembro, do *McKinsey Technology Trends Outlook 2026*. O relatório examina 14 tendências tecnológicas e tenta medir não apenas o que está sendo comentado, mas também inovação, investimento, demanda por talentos e adoção empresarial.
O valor do documento está menos em oferecer uma lista de tecnologias "vencedoras" e mais em mostrar que uma tendência precisa ser lida por vários sinais ao mesmo tempo. Para quem toma decisão em uma empresa, isso sugere uma mudança de método: tendências não deveriam entrar no planejamento como apostas isoladas, mas como um portfólio de decisões com diferentes níveis de risco, maturidade e dependência.
O que o relatório mede, e o que ele não mede
Para avaliar as 14 tendências, a McKinsey combinou seis medidas de atividade: buscas em mecanismos de pesquisa, notícias, patentes, publicações científicas, investimento em ações e demanda por talentos. A metodologia informa as fontes utilizadas em cada frente, incluindo Google Trends, Google Patents, The Lens, Factiva, PitchBook e uma base proprietária de perfis profissionais e vagas.
Isso é útil porque reduz a tentação de tratar visibilidade como sinônimo de maturidade. Uma tecnologia pode gerar muita notícia e pouca adoção. Pode atrair capital, mas ainda não ter profissionais suficientes para ser implantada. Pode apresentar avanço em patentes e pesquisas sem possuir um caso de negócio claro para determinada empresa.
O próprio relatório faz essa ressalva. Os indicadores são direcionais, não uma prova definitiva de impacto. A lista também não pretende ser completa: outras tendências podem ser mais relevantes para uma indústria específica.
Há ainda um ponto que merece atenção editorial. A McKinsey é uma consultoria com interesse comercial no tema. Isso não invalida a pesquisa, mas recomenda que suas conclusões sejam tratadas como uma lente de análise, não como uma ordem de compra.
Cinco sinais para uma mesma decisão
Uma forma prática de ler o relatório é separar a pergunta "essa tecnologia é importante?" em cinco perguntas menores.
1. Existe evidência de avanço?
Patentes e publicações científicas ajudam a indicar inovação. Eles mostram que existe atividade técnica e que pesquisadores estão tentando resolver problemas relacionados à tecnologia.
Mas avanço científico não é sinônimo de produto pronto. No próprio relatório, a McKinsey observa que a inteligência artificial pode acelerar a geração de candidatos a medicamentos, enquanto validação em laboratório, ensaios clínicos e revisão regulatória continuam exigindo tempo.
O mesmo raciocínio vale para software. Gerar código mais rápido não elimina a necessidade de revisão, testes, segurança e implantação. A velocidade de produção pode até criar um gargalo novo: sistemas acumulando código mais depressa do que a organização consegue avaliar.
2. Há atenção ou há adoção?
Buscas e notícias medem interesse. Adoção empresarial, na escala usada no estudo, tenta medir outra coisa: se a tecnologia ainda está na fronteira, em experimentação, em piloto, em expansão ou plenamente integrada.
Essa distinção deveria aparecer em toda reunião de investimento. "Todo mundo está falando" é um sinal de atenção. Não é ainda um sinal de capacidade de execução.
A empresa precisa perguntar: há um processo real esperando essa tecnologia? Existe um usuário responsável? O resultado será medido? A organização tem dados, integração e governança para sustentar o uso depois do piloto?
Sem essas respostas, a iniciativa corre o risco de virar demonstração. Bonita na apresentação. Frágil na operação.
3. O talento está disponível?
Tecnologia não se instala sozinha. O relatório diferencia tendências em que a demanda por profissionais já aparece em funções de operação, administração e vendas daquelas em que mais de 75% das vagas ainda estão concentradas em pesquisa e desenvolvimento, como ocorre nas quatro tendências ligadas à inteligência artificial e nos semicondutores específicos para aplicações.
Essa diferença muda a decisão.
Uma empresa pode conseguir comprar uma solução, mas não encontrar quem saiba integrá-la ao trabalho diário. Pode contratar uma ferramenta de agentes, por exemplo, sem ter alguém capaz de definir limites, revisar resultados e redesenhar o processo que o agente deveria executar.
Disponibilidade de talento não é detalhe de recursos humanos. É uma dependência do investimento.
4. A infraestrutura aguenta?
O relatório também desloca a conversa para a infraestrutura física. A inteligência artificial exige energia, chips, data centers, redes e capacidade de processamento. A página da pesquisa registra que o investimento em infraestrutura de inteligência artificial dobrou em um ano e que as tecnologias de energia receberam quase US$ 200 bilhões em investimentos em 2025.
Esses números descrevem o mercado analisado pela consultoria. Não significam que uma pequena ou média empresa precise acompanhar essa escala de investimento. O significado estratégico é outro: até uma decisão aparentemente digital depende de recursos físicos e de fornecedores que podem estar pressionados.
A restrição pode aparecer em custo, latência, disponibilidade, segurança ou dependência de uma plataforma. Antes de escalar, vale mapear o que acontece se o fornecedor mudar o preço, se a integração falhar ou se a equipe responsável sair.
5. Onde está o valor do negócio?
Investimento é sinal de convicção do mercado, não previsão de sucesso. A McKinsey mediu os aportes do primeiro semestre de 2026 e extrapolou as taxas de crescimento para produzir uma visão prospectiva do ano. Cinco tendências estavam no caminho de receber mais que o dobro do investimento de 2025: desenvolvimento de software agêntico, infraestrutura e arquiteturas de modelos de inteligência artificial, inteligência artificial para descoberta científica e engenharia, tecnologias espaciais e robótica.
"Estar no caminho" é diferente de "ter recebido". "Receber investimento" é diferente de "gerar valor para a sua empresa". A projeção deve ser lida como projeção.
O filtro decisivo continua sendo o modelo de negócio: qual receita, custo evitado, risco reduzido ou capacidade liberada a iniciativa produz? Em quanto tempo? Com quais dependências? O que precisa ser verdade para o resultado aparecer?
O portfólio evita dois erros opostos
Pensar em portfólio não significa pulverizar orçamento em 14 frentes. Significa distribuir decisões entre horizontes diferentes.
Uma empresa pode manter algumas tecnologias em observação, testar outras em processos pequenos e concentrar investimento nas que já têm problema, responsável, métrica e caminho de integração definidos.
Esse arranjo evita o primeiro erro: perseguir todo modismo ao mesmo tempo. Também evita o segundo: esperar certeza total antes de aprender alguma coisa.
O critério não é escolher entre inovação e prudência. É decidir quanto aprender, quanto investir e quais sinais justificam ampliar ou encerrar cada aposta.
Uma ficha simples já ajuda. Para cada iniciativa, registre o problema de negócio, a hipótese de valor, o estágio de maturidade da tecnologia, as dependências de dados e infraestrutura, a capacidade interna disponível, o custo de não fazer nada e o próximo experimento. Defina também o sinal de ampliação e o sinal de encerramento.
A decisão começa antes da ferramenta
O relatório de 2026 descreve um mundo em que a inteligência artificial acelera software, robótica, ciência, segurança e infraestrutura. A leitura mais plausível não é que todas as empresas devam correr para a mesma tecnologia. É que a velocidade das possibilidades aumentou, e decisões sem método ficaram mais caras.
Para algumas organizações, o próximo passo será investir. Para outras, será organizar dados, redesenhar um processo, formar talento ou simplesmente acompanhar o tema por mais tempo.
O trabalho estratégico está em distinguir essas situações.
Tecnologia relevante não é necessariamente tecnologia prioritária. A prioridade nasce do encontro entre evidência, capacidade interna, dependências e valor econômico.
O modismo pergunta: "o que há de novo?".
O portfólio pergunta: "qual decisão faz sentido agora, e que evidência me fará mudar de ideia?".
Nota editorial
Formato escolhido: análise.
Autoria considerada: Lincoln Ferraz, em registro editorial autoral.
Fonte principal: McKinsey Technology Trends Outlook 2026, publicado em 15 de setembro de 2026.
Fatos confirmados utilizados: escopo de 14 tendências; medidas de atividade e fontes metodológicas; escala de adoção empresarial de 1 a 5; ressalvas do relatório sobre indicadores direcionais; distinção entre dados do primeiro semestre e extrapolação para 2026; tendências apontadas como estando no caminho de mais que dobrar o investimento.
Inferências: a proposta de portfólio, os filtros de decisão e as recomendações operacionais são interpretação editorial derivada da metodologia e das ressalvas do relatório, não conclusões apresentadas como prescrição pela McKinsey.
Limitações: não foi feita validação independente de todos os números do relatório nem comparação sistemática com estudos de outras instituições. As bases de demanda por talentos são predominantemente de países de língua inglesa, conforme a própria metodologia. O interesse comercial da consultoria também deve ser considerado.



